O Doutor Socrates

Dizem os romanticos que o futebol morreu em Espanha,  no dia da eliminação do Brasil no Mundial de 1982.

Concorde-se ou não, uma Verdade fica, arte como aquela, nunca mais se viu em nenhum relvado.

O Maestro (Tele Santana)  da orquesta já tinha falecido em 2006, agora juntou-se-lhe um dos seus principais solistas, o capitão Socrates.

Deixo-vos a crónica do João Querido Manha publicada no jornal Record a propósito do óbito.  

Democracia corintiana

O desaparecimento de Sócrates numa altura do ano em que sucedem as eleições dos melhores transporta-nos para o tempo em que os Campeonatos do Mundo eram, de quatro em quatro anos, o único momento de comparação de valores. Até 1982, eram raros os jogadores sul-americanos de nível internacional que trocavam os seus clubes por aventuras na Europa, devido ao fecho das fronteiras italianas e ao snobismo inglês.

Embora a história guarde como “melhores” daquele ano Rossi, Giresse e Boniek, foi o Doutor que maravilhou ao comando do escrete, naqueles cinco jogos inesquecíveis em Sevilha, Málaga e Barcelona. O Mundo não o conhecia, nem a Junior, nem a Éder, nem a Falcão, só Zico já vinha de 1978. Eles formaram a melhor seleção de sempre, sem título por causa de uma lesão estúpida do avançado Careca, ocorrida no último treino em Lisboa.

As escolhas dos melhores jogadores eram então feitas em circuito fechado, coisa de iluminados, com muita influência de bastidores, sem escrutínio democrático e pouca discussão. Politicamente incorreto, formado em Medicina, culto, inteligente e desassombrado, Sócrates nunca podia ser o melhor, apesar de logo se reconhecer que não tinha havido na história do futebol um líder mais marcante e esclarecido.

Naquele tempo, quando os jogadores eram mais sedentos de glória do que de dinheiro, os treinadores também não tinham descoberto os benefícios e prazeres da rotatividade das equipas. Para defrontar a Nova Zelândia, o quadrado mágico de Telé Santana não teve descanso, apesar de a equipa já estar apurada, e nunca a fadiga foi apresentada como desculpa para a derrota perante a Itália, ao quinto jogo, depois de ultrapassada a Argentina.

Trinta anos passados, a sobrecarga dos calendários dá ao treinador moderno a possibilidade de jogar com as peças do plantel como se fosse xadrez. Bispos, cavaleiros e torres são poupados e só avançam os peões, sem rei nem roque, lançados para desafios com uma imensa margem de voto ao fracasso. Grandes equipas são afastadas prematuramente de competições onde tinham entrado com pretensões e responsabilidades – um enorme absurdo que coloca em xeque esses transitórios centros de poder, julgados inquestionáveis, que então revelam não ter consciência do valor real e do rendimento estimável dos profissionais a seu cargo.

Há 30 anos, Sócrates liderou o primeiro e único movimento de gestão democrática de um clube e de uma equipa de futebol. Durante dois anos, o Corinthians foi campeão, pagou as dívidas e assegurou o futuro através da administração participada dos jogadores, inclusive nas decisões desportivas. O que eles decidiam tinha de ir ao encontro – e ia – do senso comum, mostrando que era possível dirigir uma equipa de futebol sem opções controversas, mestrados de tática, substituições mirabolantes nem tiradas geniais.

A lição que fica da carreira de Sócrates, jogador politizado que tinha um sociólogo como diretor, é a defesa intransigente da verdade e da liberdade. Sem tibiezas, sem espertezas, sem manias e sem medo nem reserva de dar o máximo. No Corinthians de 1982, jogavam sempre os melhores, sem rotatividade, em respeito pela maior torcida do Brasil.

João Querido Manha

in Record

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Filed under Futebol, Sociedade

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